Lá em casa

Escrito por Thais Bechara. Publicado em Blog.

Lá em casa o dia começava cedo.

Mamãe, antes de sair de casa para trabalhar, oferecia uma vitamina substanciosa para garantir a alimentação dos filhos. Não tínhamos opção! Era tomar ou tomar.

Por volta das nove horas, éramos chamados para tomar o café da manhã. Tinha misto quente feito no tostex, café com leite, gemada, banana amassada com açúcar, leite Ninho e Nescau. Ainda consigo sentir os aromas, os gostos e a alegria de começar o dia.

Se a lição de casa não estivesse feita, nada de brincadeira. Primeiro a responsabilidade!

O quintal lá de casa era famoso na vizinhança! Era palco de muito jogo de futebol com a turma. Tinham meninos e tinha menina jogando. Era um acontecimento quase que diário! Alguém sempre precisava sair do jogo por causa de algum acidente (joelho esfolado no chão de cimento, dedão do pé sangrando, perna com hematomas...). Fazia parte da vida! A maleta de primeiros socorros ficava sempre preparada para emergências.

Esse quintal tinha o formato de L. Começava no portão verde e ia até a porta da garagem. Quando pequenos, achávamos  o espaço  largo e longo. Hoje esse espaço não é tão grande como parecia ser! Coisas da idade!

Nesse quintal, teve festa de aniversário, festa junina, comemoração do Dia das Crianças (o presente era a brincadeira com os amigos), batizado de gato, corrida de kart, encontros marcados, conversas no alpendre e balanços na rede.

Nesse quintal, na parede perto da cozinha, tinha pendurada uma lousa. Lá era a minha sala de aula! A brincadeira de escolinha acontecia todos os dias! Meus alunos eram minhas bonecas e meus gatos.  Ainda hoje, tenho a esperança de ter conseguido alfabetizar alguns  desses estudantes! Com certeza, nessa época, minha escolha profissional estava definida.

Nesse quintal, moravam meus amigos imaginários: Beleléu, Ratite e Lelis. Beleléu (uma árvore) era o amigo mais íntimo. Trocávamos confidências! Quantos segredos revelados! Deixei de ter contatos com eles quando mudamos de casa e de cidade! Não tive sequelas com a separação. Coisas de criança!

Nosso quintal era um lugar muito especial e muito bem frequentado: pais, mães, filhos, irmãos, avós, tios, primos, vizinhos, padre, colegas de escola, gente da cidade e gente que não era da cidade.

Bons tempos! Tempos que aprendi a importância de uma boa alimentação, de entender o quanto é necessário conviver com as pessoas, que para se divertir basta preparar o espírito, que se machucar faz parte da vida, que é preciso valorizar os repertórios de interação, que é preciso assumir responsabilidades, que desafios e frustrações devem ser enfrentados, que crianças experimentam, observam, imitam, exploram e resolvem problemas.

O meu quintal  não foi somente um espaço onde se brincava, nem tão pouco um lugar qualquer, mas um verdadeiro ambiente de aprendizagem.

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